A sombra do pai (2019)

Atualizado: 24 de Abr de 2019


Com lançamento programado para o dia 2 de maio, A sombra do pai é a nova incursão de Gabriela Amaral Almeida no universo do horror. Assim como o excelente trabalho anterior da cineasta, Animal Cordial, trata-se de um filme de gênero, mas Gabriela trabalha sua história com a mesma densidade dos bons dramas, ao mesmo tempo em que não se poupa de usar o clima, estética e recursos visuais e sonoros do gênero de horror - ou dos "Filmes de Medo", como a diretora prefere nomeá-los. Os resultados são narrativas envolventes e repletas de interpretações e camadas de significado.

A sombra do pai conta a história da garota Dalva (Nina Medeiros) e de seu pai (Julio Machado), um operário bruto, amargurado pela vida difícil que levam. Ambos lidam com o luto após perda da figura da mãe; Luciana Paes, no papel da tia, é um ponto de equilíbrio no ambiente familiar, mas a eminência de seu casamento ameaça a rotina do lar de classe média baixa em que vivem.


Chama atenção a forma com que Gabriela foge do lugar comum na construção de sua atmosfera de horror. Em um filme de ação óbvio o homem branco, dono de seu negócio, que pega em armas para evitar um assalto seria o herói. Gabriela subverte essa lógica com Animal Cordial, um filme slasher cheio de cenas impactantes em que o cidadão de bem brasileiro se transfigura em vilão assustador após vivenciar uma situação-limite. Em A sombra do pai também temos um elemento social sendo usado na construção da narrativa. A figura do pai ausente, bruto, pouco apto para lidar com uma paternidade indesejada é o ponto de partida para a atmosfera de terror psicológico que envolve a trama. Mais do que isso, também acaba por inspirar elementos lúdicos obscuros e cenas de susto mais tradicionais. 


Partindo de um tema tão universal quanto a paternidade e suas questões - um conflito que está presente desde do teatro grego a psicanálise, passando pela famosa Carta ao Pai, de Franz Kafka -, Gabriela mostra a perspectiva sombria de um mundo opressor, embrutecido pelo trabalho duro e por relações frias. O flerte com o sobrenatural é um respiro para a pequena Dalva, um escape que aparece em brincadeiras com a tia, mas é negado pela figura da autoridade - o pai - que chama de volta à realidade. Ele, por sua vez, vive em constante tensão em um emprego insalubre, oprimido pelas incertezas causadas pela demissão de colegas e pela fragilidade de sua classe social.

Claro que todas essas leituras são interpretações, e é bom que se saiba que o filme não pesa a mão para impor seu subtexto, e que mesmo uma leitura rasa dos personagens e suas motivações já é suficiente para criar uma narrativa interessante e que segura o espectador. Em um momento no qual o cinema de gênero se vê numa espiral de remakes e filmes de franquia, é animador ver um filme de terror que consegue equilibrar tensão e o medo a um roteiro sólido e com diversas camadas. Gabriela faz isso sem negar as referências ao cinemão americano do gênero - A noite dos mortos vivos (George Romero, 1968) e Cemitério Maldito (Mary Lambert, 1989) chegam a aparecer na televisão sintonizada por Dalva. E, mais do que isso, Gabriela ainda enche seus filmes de Brasil contemporâneo, real, com seus personagens e contradições sociais, fugindo de representações neutras ou alinhadas a estética americana, como alguns filmes da nova safra de terror tem optado por fazer. 


Lançado pela Pandora Filmes com um esquema especial de distribuição e com apoio do produtor Rodrigo Teixeira, o longa tem potencial para aproveitar o boom de popularidade do gênero de terror e fazer bons números. Mas, independente de qual venha a ser seu resultado nas bilheterias, A sombra do pai afirma de vez Gabriela Amaral Almeida entre os nomes mais interessantes da nova safra de cineastas brasileiros.

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