Boi de Lágrimas (2019)

Atualizado: 1 de Fev de 2019



Boi de Lágrimas, novo filme de Frederico Machado, já canta na sinopse: cultura popular, manifestações de rua no Brasil, referências de Glauber Rocha, Lynch e Eisenstein, e pensado como parte de um projeto intitulado Filme Político. Mais janeiro de 2019 talvez impossível.


Soma-se a isso que, num momento de expectativa em relação ao futuro do investimento público na cultura e à descentralização do acesso à produção, chega ao circuito de cinemas (ainda restrito) um filme rodado em São Luis, no Maranhão, em apenas três dias, com recursos de dez mil reais - mais que baixo, praticamente um não-orçamento.


PODCAST: Entrevista de Frederico Machado ao podcast sobre Boi de Lágrimas, em janeiro de 2018, Lamparina da Aurora, em novembro de 2017, e O Signo das Tetas, em julho de 2016

Mantendo o clima de seus três longas lançados nos últimos anos - Lamparina da Aurora (2017), O Signo das Tetas (2015) e O Exercício do Caos (2013) -, Boi de Lágrimas é mais poesia do que prosa, e segue a linha de buscar a textura do drama existencialista praticamente em silêncio com elementos estéticos que o tempo todo remetem ao suspense, à criação de tensão, resultados de uma trama sensorial que marca o estilo do diretor.


Dessa vez, a contemporaneidade política é mais presente. O filme, rodado em 2017, se passa em meio às manifestações de rua no Brasil, num contexto de atos diante das reformas do último governo. É nesse ar de "Fora, Temer" que os personagens se cruzam entre o ambiente social e um grupo de Bumba Meu Boi na capital maranhense: o pai, tocador de pandeiro; a filha, dançarina e ativa nos protestos; a mãe, grávida; o namorado da filha, o mais coadjuvante deles; e um amigo, um tanto misterioso.




Antes de chegar aos dias de hoje, ainda há a presença de discursos políticos clássicos, como aquele em que Mahatma Gandhi trata de "um poder misterioso indefinível que permeia tudo". Quando falas desse porte atravessam a batida do tambor, inevitável não pensar em como a cultura popular, seja por reverberação artística ou enquanto reunião social e comunitária, é nossa maior resistência, é o lugar onde nos encontramos e queremos estar.


É claro também que os filmes de Frederico não são necessariamente fáceis para embarcar, mas, apesar da ousadia estética, também não caem no fetiche vazio, num deslumbramento morto. Como já revelou numa conversa anterior (2017) com nosso podcast, o diretor admite ainda se sentir um tanto solitário no contexto do cinema local, ao tempo que a repercussão de suas empreitadas oferecem a energia para seguir filmando no Maranhão. Só por essa teimosia, ainda mais vinda de um lugar que o Brasil pouco vê na tela grande, a arte de Frederico Machado já vale demais a pena.


Boi de Lágrimas - estreia em 24 de janeiro de 2019





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