O Central Cine Brasil é, desde 2016, um podcast de cinema brasileiro. A partir de 2019, também uma página com artigos em texto e uma newsletter semanal com cobertura do audiovisual nacional.

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Central Cine Brasil - 2016 - 2019

Como o Central Cine Brasil me reaproximou do cinema nacional

Atualizado: 17 de Jan de 2019


(e porque todo cinéfilo deveria fazer o mesmo)




É com um título buzzfeediano que abro este texto, na esperança de angariar leitores e cliques para essa nova empreitada do Central Cine Brasil. Agora com site e newsletter, queremos nos aproximar mais do público e, com isso, quem sabe, aproximá-los da nossa produção audiovisual. Eu confesso que também não dava tanta bola para o nosso cinema quando o programa surgiu. De início, fui apenas ouvinte, e aos poucos fui me interessando por aqueles títulos que eram comentados no podcast. Meu encantamento definitivo se deu com o filme que também marcou minha primeira participação no programa: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, me fez sair do cinema embasbacado. Éramos capazes de fazer CINEMA, com todas as letras, em caixa alta, com a nossa cara, nossa voz, nossas músicas - e com Sonia Braga, claro!


Foi a primeira surpresa positiva, de inúmeras que viriam. Após 120 programas no ar - e quantidade parecida de filmes brasileiros assistidos no mesmo período de tempo - há uma única constatação possível: o cinema brasileiro vive uma fase única, com uma produção expressiva e diversificada. Nunca se lançaram tantos filmes. Em 2017 batemos o recorde, com 158 lançamentos; em 2018, superamos, com mais de 160. Mas não estamos tratando apenas de números, numa mera avaliação quantitativa ou financeira de resultados. O grande diferencial dessa safra recente é a qualidade. Os filmes estão muito maduros, tecnicamente bem resolvidos, com histórias intrigantes e boas atuações. Conseguimos superar boa parte da imagem "tosca" que era vinculada ao cinema nacional, ainda resquício dos tempos do período pós-pornô-chanchada ou de orçamentos minguados do início da Retomada. Até uns anos atrás ainda havia a sensação de que só fazíamos dramas sociais - incluindo os famosos favela movies, ou filões comerciais, como as cinebiografias e comédias escancaradas da Globo Filmes.


Além da quantidade inédita, a safra recente de filmes tem mostrado histórias novas, que nosso cinema não contava. Estamos fazendo narrativas leves sobre famílias em crise, como Benzinho, mas também temos o cinema de ação. representado pelas incríveis cenas de luta de 10 Segundos Para Vencer. Revisitamos nossos esquecidos índios, seja no tom pesado do marcante Martírio ou com a poesia e estética de Ex-Pajé. Fizemos co-produções com toda a América Latina, como no excelente Severina, que uniu Brasil e Argentina para narrar uma estranha história de amor na sedutora Ciudad Vieja de Montevidéu. Já As Boas Maneiras deu sotaque paulista ao gênero terror, com qualidade e efeitos que não devem nada às melhores produções do gênero. Cruzamos o mundo mochilando, com Gabriel e a Montanha; mergulhamos no sobrenatural e na literatura, no inusitado documentário Hilda Hilst Pede Contato. E isso tudo só citando alguns poucos destaques da produção de 2017 e 2018. Apenas nesses dois últimos anos tivemos um amplo leque de temas e linguagens, contemplando desde o filme intimista, autoral, ao cinemão; do documentário de imagens de arquivo, baseado na montagem, ao tradicional estilo de conversa e cabeças falantes.


No meio de tanta coisa, também é importante destacar as várias regiões representadas ao se elencar alguns nomes promissores. O carioca Fellipe Barbosa, de Gabriel e a Montanha e Casa Grande, tem obtido repercussão no Brasil e no exterior desde sua estreia na direção. Aly Muritiba, diretor do jovem e impactante Ferrugem representa Curitiba. De Minas, os diretores Affonso Uchoa e João Dumans, que dirigiram juntos Arábia, foram premiados no Festival de Brasília. Para falar de algumas mulheres, que têm aparecido cada vez mais nesse cenário antes dominado por homens, é possível citar a paulista Gabriela Amaral, do ótimo slasher tupiniquim Animal Cordial ou a porto-alegrense Cristiane Oliveira, estreante com o ótimo A Mulher do Pai. Regiões raramente retratadas ganharam filmes surpreendentes: foi o caso de Goiás, com o sensível As duas Irenes; do inventivo e tocante Recôncavo Baiano de Café com Canela; ou da Brasília totalmente reinventada por Adirley Queirós, em Branco Sai, Preto Fica.

Nos últimos anos, e através de políticas estatais de incentivo, o cinema brasileiro tem se imposto como uma importante ferramenta cultural. Mais do que um entretenimento, o audiovisual deve ser uma maneira de mostrar o país e seu povo nas telas, uma ferramenta de empatia e representatividade. Temos muitas histórias genuinamente brasileiras sendo contadas, e uma produção cada vez mais pluricultural e diversificada regionalmente. Com apoio de editais específicos e regulamentos que privilegiam regiões antes esquecidas, os filmes estão sendo feitos, o que é um passo importante. Agora a dificuldade maior é conseguir fazer essa produção toda chegar ao público. Claro, há a questão dos superlançamentos, que ocupam praticamente todas as salas de um mesmo cinema. Os filmes de herói, por exemplo, têm concentrado bilheterias e atenções. O momento é ruim em geral para o mercado de cinema independente, autoral ou para os filmes mais sérios. Mas essa discussão é longa, complexa e - infelizmente - até um pouco desanimadora; então deixemos isso para outro momento, e vamos aguardar a safra 2019, que promete: Marighella, Mormaço, Domingo, Turma da Mônica, Minha Fama de Mau, Simonal, Meu Nome é Gal, entre outros. Tudo isso sem esquecer, é claro, do já antecipadamente consagrado filme de maior bilheteria do ano: Nada a Perder - parte 2. O título, ao menos, é honesto - nada a perder, realmente; passem longe, e bom ano!

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