Dorival Caymmi e Zé Celso, separados na maternidade

A terça-feira de 9 de abril de 2019 foi dia de rodada dupla. No início da noite, corri até o Instituto Moreira Salles, na Avenida Paulista, quase Consolação, para pegar o penúltimo ingresso da sessão de estreia de “Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos”, documentário a respeito deste pilar da música popular brasileira, no festival É Tudo Verdade.



Foi bom ver a descolada sala do Cineteatro do IMS lotada. Depois do mandachuva Amir Labaki, a diretora Daniela Broitman fez um pequeno discurso e se locomoveu até o final da câmara escura, de onde aguardou pelas reações dos presentes. Daniela já havia conversado com o Central Cine Brasil na semana anterior, durante a cerimônia de abertura do É Tudo Verdade, e revelou que uma entrevista inédita era o fio condutor do seu documentário.


“Estava no processo de fazer o filme quando fiquei sabendo dessa entrevista e fui atrás...São imagens que nunca ninguém viu, bem íntimas. Diferentemente de outros filmes musicais, esse não tem imagem de show, de programa de TV, exaltando o ídolo. De certa forma, procurei desmistificar”, disse Daniela.


O material inédito traz Dorival já em idade avançada, mas ainda em todo seu esplendor e luminosidade, cercado da família e de amigos. O momento de vida em que o gênio baiano é retratado ali transmite ainda mais saudosismo ao doc. É como se acompanhássemos os últimos momentos do artista que abriu alas para a bossa nova, a tropicália e a internacionalização da música brasileira.


A rica entrevista conseguida por Daniela é acompanhada por testemunhos de ídolos que tanto devem a Caymmi (Caetano e Gil, Tom Jobim, a filha Nana Caymmi…) e por belas imagens de arquivo do mestre. O ponto alto talvez sejam as cenas da versão norte-americana do filme “Capitães de Areia”, “The Sandpit Generals”, que curiosamente virou sucesso na União Soviética e foi assistido por mais de 40 milhões de russos nos anos 1970. Dorival faz uma pontinha como barqueiro pescador na película.


Deixei o IMS rumo à Rua Augusta com o som das melodias praieiras e românticas de Caymmi no fone de ouvido, emocionado pela simples complexidade do cinebiografado. No Espaço Itaú, encontrei outro baluarte da cultura nacional, este vivo e o oposto desenhado de Caymmi, o baiano “come quieto”, que diz ter comido todas as esposas dos homens que o chamavam de viado pelo seu jeito de ser mais delicado.


A estrela da noite na Augusta posou fazendo caras e bocas, acendeu um baseado em pleno foyer, deu beijos de língua no ator Marcelo Drummond diante das câmeras. Era Zé Celso, o protagonista de "Horácio", comédia do estreante diretor paulista Mathias Mangin.


Monstro sagrado do teatro, Zé pinta e borda na telona em "Horácio". O longa começa com tons de dramalhão, lembrando Almodóvar no exagero dos cenários e das atuações. O personagem de Drummond é tão ou mais engraçado que o protagonista e entre ambos, sucede-se uma série de casos malucos e desencontrados.


Horácio é um excêntrico contrabandista de 80 anos que está foragido. Apaixonado pelo seu capanga (vivido por Drummond), ele quer fugir com o amor platônico para o Paraguai. Mas o capanga tem uma relação por telefone com uma trans e está ocupado com os problemas arrumados pela filha depressiva de Horácio (Maria Luísa Mendonça). Uma loucura na qual Zé Celso se encaixa com muita naturalidade.


Simplesmente pela presença magistral de Zé e Caymmi, "Um Homem de Afetos" e "Horácio" já valem o ingresso. Assistir aos dois em sequência talvez não seja o ideal, sob risco de as ideias entrarem em combustão. Mas ambos merecem ser prestigiados.

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