Estou me guardando para quando o carnaval chegar

Direção: Marcelo Gomes


Toritama, Pernambuco; 170 km de Recife; 40 mil habitantes; 20 milhões de peças de jeans produzidas anualmente. A capital brasileira do jeans, como a cidade orgulhosamente se auto intitula, é uma paisagem atípica no agreste nordestino. Cercada por outras cidades menores, mais pobres e sem oportunidades de emprego, o lugar se impõe como um destino certo para quem tem disposição para trabalhar. As confecções estão por todos os cantos, ocupam as calçadas, brotam dos quintais. Serviço? Não falta, há o suficiente para ocupar 12 horas diárias - ou até mais - de quase toda população local.


É nesse cenário que o documentarista Marcelo Gomes desembarca para filmar. Sua memória ainda traz o agreste da infância, que se confunde com as lembranças nostálgicas, a saudade da figura paterna. Um agreste desolado, quase fora do mundo, com uma vida que segue um ritmo particular. Há um choque ao se deparar com a nova realidade, escancarada logo na entrada da cidade, onde uma estátua já desbotada anuncia: “Toritama: A capital do jeans”. Tentando desvendar o local e seus personagens, Marcelo anda pelas confecções, galpões, ruas e calçadas, e questiona os moradores sobre seus sonhos, inquietações, busca seus hábitos e rotinas. Mas tudo que encontra é trabalho. É ele que dita o ritmo da cidade, tirando todos da cama ainda de madrugada; é o assunto que se apropria de todas as conversas e que ocupa quase integralmente o tempo e a cabeça daquelas pessoas. Só há uma maneira de conseguir ver a cidade para além do trabalho: esperar a chegada do carnaval.


Enquanto aguarda, Marcelo segue se embrenhando na vida local. Conversa com os moradores - enquanto eles trabalham, tempo é dinheiro e ninguém quer perder uns trocados - e observa a rotina das confecções. O cineasta captura o ritmo frenético, os movimentos repetitivos, o barulho incessante e perigosamente alto das máquinas. Incomodado, tal qual Carlitos na linha de produção de Tempos Modernos, o diretor decide usar seu poder de Deus - tira o som ambiente, sobe a trilha! Corta aqui, junta ali, um movimento de câmera. No novo enfoque a realidade aparece mais bonita, o ritmo flui, as imagens não parecem mais representar um trabalho repetitivo e cansativo; poderiam ser usadas para um vídeo institucional que apresentasse a cidade como um paraíso capitalista, um retrato da eficiência operacional, um oásis para quem busca trabalho. Um case de sucesso da indústria nacional.



Mas não é essa a imagem que interessa ao documentarista. Sua busca prossegue. Ouvindo os moradores, um discurso dominante logo começa a chamar atenção. Em Toritama não há empregados. Todo mundo é patrão. Trabalhando até 16 horas por dia, mas com a liberdade de poder fazer o seu horário e recebendo por produção, os moradores tem a impressão de que fazem parte do negócio. “Cada bolso costurado são 20 centavos”. Mas quanto ganha o trabalhador? “Quanto quiser”. Depende apenas de seu trabalho. Todos são autônomos, orgulhosos de sua condição, livres para escolher e para ditar sua rotina. Curiosamente, assim como o discurso de liberdade, a descrição da rotina diária parece se repetir a cada entrevistado. Acordar às 5 horas da matina, trabalho, café da manhã, trabalho, almoço, janta, trabalho, cama. A liberdade parece ter pouco efeito, quase ninguém escolhe trabalhar menos. Há dinheiro a ser ganho, e o carnaval está chegando. A contagem regressiva prossegue, e todos tentam levantar um dinheiro para o tão sonhado feriado na praia.


É com delicadeza que Marcelo Gomes se desloca nesse mundo particular, tomando o cuidado de não julgar, não se intrometer nas escolhas alheias. Por mais que esteja incomodado com as situações, ele não se manifesta. É preciso, acima de tudo, respeitar o outro. Seus personagens são pessoas simples, e as histórias em que acreditam - são seus próprios chefes, têm liberdade, são privilegiados - fazem parte de um faz de conta necessário. Como se levantar da cama sabendo que suas próximas 16 horas serão de trabalho - e que isso se repetirá por longos 365 dias? Claro, a resposta poderia ser: “estou aguardando o carnaval chegar”, porém isso não é suficiente. Sem a aceitação do discurso neoliberal, sem pintar com outras tintas a própria realidade, não há força de vontade que resista.


O tempo segue, implacável, e o carnaval se aproxima. A cidade se divide entre os que já fazem planos e sorriem pensando em mar, vida boa e curtição; e os que estão apreensivos, fazendo contas, tentando alcançar o suficiente para desfrutarem de uma semana inteira longe do trabalho e das preocupações. E é aí que o discurso cai por terra. Nem todos conseguem juntar o dinheiro necessário - mesmo ganhando “o quanto quiser ganhar”, com toda a liberdade de “patrões”. Em clima de desespero, uma cena se repete anualmente na cidade: moradores levam seus bens para serem vendidos. Uma geladeira, uma televisão, tudo vale para complementar o valor das passagens rumo à praia. São bens necessários, comprados com suor ao longo de 12 meses de trabalho. Já não importa. Chegou o carnaval, e todos estão - agora sim - verdadeiramente livres.


Marcelo Gomes permanece em Toritama. Reservado, não vai se intrometer na diversão alheia. Deixa uma câmera com um grupo de personagens, e eles mesmos contarão suas histórias. Eles filmam o próprio lazer. O diretor filma apenas o trabalho. A cidade fica praticamente deserta. Ali está o agreste da infância de Marcelo. Paisagens desoladas. Ritmo lento. Uma vida pacata. Longe dali, os personagens se divertem, extravasam. É carnaval. A televisão vendida não faz falta nesse momento. Não há a preocupação de como será passar meses sem geladeira. Essa conta ainda não chegou. Quando a farra acaba, silêncio. Logo o barulho das máquinas recomeçará. Os 365 dias até o próximo carnaval nunca pareceram tão distantes.



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