Mataram meu irmão (2013)





Mataram meu irmão pode causar estranheza no início. Não parece um filme muito bem acabado. Assim como a vida de seus personagens principais, é cheio de questões mal resolvidas, passagens sem muito sentido ou conjecturas do que poderia ter sido e não foi.

O diretor, Cristiano Burlan, é também o narrador. Na primeira cena, Cristiano faz uma ligação na qual tenta localizar o corpo de seu irmão, Rafael Burlan, já enterrado anos atrás. É basicamente isso que veremos na tela na próxima hora: uma busca pessoal do cineasta - não só pelo corpo de seu irmão, mas também uma procura de sua imagem, de sua identidade, remexendo velhas histórias, voltando a encarar os vestígios que restaram de sua breve passagem por aqui.


Desde seu depoimento inicial, quando ficamos sabendo uma versão resumida de toda a história, fica claro que Cristiano está tentando expiar fantasmas, culpas e medos. O filme é uma tentativa de redenção com o irmão que - julga o diretor - poderia ter sido ajudado a tempo e, talvez, estar vivo. Mas também é uma redenção de Cristiano para com o Cinema. Uma forma de agradecimento. Pois talvez a arte seja o motivo pelo qual ele escapou de um destino parecido. Um destino que tem perseguido a sua família - seu pai, sua mãe e outro irmão também tiveram desfechos terríveis, também retratados em filmes (Construção, de 2006, e Elegia de um Crime, 2019). Tal sina leva Cristiano até mesmo a se questionar, em conversas com um amigo, se não seria adotado. Sua sobrevivência e o modo como conseguiu se distanciar de tudo aquilo são peças que não se encaixam; algo não parece certo.


Na mais longa, esclarecedora e lúcida entrevista, um amigo fala sobre Rafael, mas também deixa escapar diversas revelações sobre Cristiano, com grande cumplicidade. Ele não parece ter o mesmo perfil dos outros entrevistados, pessoas humildes do Capão Redondo. Mas ele também era de lá, morador da comunidade. Também fez suas fitas; alguns roubos de shopping, uns tiros, umas farras nos bares da região. Não temos detalhes maiores, mas algo o afastou dali, junto com Cristiano, imagina-se, pela proximidade da conversa. Talvez a oficina de teatro citada em outro momento. Alguma outra coisa? A arte, provavelmente?


Como retribuição, é desse meio que Cristiano se vale para exorcizar os demônios internos e revisitar traumas. Por trás da câmera o tempo todo, ele tenta manter um afastamento sentimental, uma certa frieza com os entrevistados, por mais próximos que sejam. Fala muito pouco. Escuta tudo. Silencia. Deixa que o outro continue, que o silêncio constrangedor o obrigue a falar mais. A se expor. Lembra um pouco o tom do velho Coutinho, esquivando-se dos sentimentos alheios. Mas nesse caso é Cristiano que está em uma luta perdida, impossível desde o começo; e em alguns momentos ele sai do personagem e desaba de sua posição de narrador externo. 


São nessas quebras, nos defeitos, na crueza dos sentimentos e dos relatos, na simplicidade de seus personagens e na extrema sinceridade impressa em cada frame que Mataram meu irmão pega o espectador. Sabemos que aquela história poderia ter sido a de Cristiano. Mais do que recuperar a caminhada do irmão, o diretor está vislumbrando a sina de sua família, o destino do qual escapou. 

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