Raiva (2019)

Atualizado: 8 de Mar de 2019




Foi inevitável assistir Raiva, de Sérgio Tréfaut, e não lembrar de Vidas Secas, clássico de Graciliano Ramos levado às telas por Nelson Pereira dos Santos, então faço o registro logo de cara. Tal como Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos e a cachorra Baleia parecem estar desde sempre num sofrimento de difícil resolução, aqui, no Alentejo dos anos 1950 – e não no sertão nordestino do início do século XX -, torcemos pela resistência de Palma e sua família diante da fome, da falta de empatia por parte dos poderosos e de seu próprio lugar no mundo, que parece negar até os direitos básicos pela sobrevivência.


O filme trazido pelo diretor nascido no Brasil, mas que estudou na França e seguiu para Portugal é coproduzido exatamente por esses três países e é baseado no romance português Seara de Vento, de Manuel da Fonseca. Segundo Sérgio, que revisitou Vidas Secas antes de rodar Raiva, a grande diferença entre as obras se dá na luz: a caatinga e o cerrado, claros, dão lugar a um filme escuro, sombrio. E aponta outra disparidade, ainda que não necessariamente se refira ao filme clássico brasileiro: “Uma coisa que é tocante no Brasil é como as pessoas sem instrução são capazes de se expressar. O Alentejo é o contrário: aquilo ficou preso.”


PODCAST | Ouça aqui a edição #132, que entrevista o diretor Sérgio Tréfaut e debate o filme Raiva

Para contar a clássica saga da família pela dignidade durante a ditadura portuguesa, Raiva começa pelo fim. Primeiro, Palma, um camponês chefe da família que controla as liberdades da mulher e tem pouco trato com os filhos, se resolve diante do fazendeiro que o reprime; depois, o longa mergulha no contexto da relação entre o pobre, o proprietário e a força do Estado.


Sem ansiedade pelo desfecho, nos debruçamos na intimidade das vidas secas lusitanas. Enquanto Palma sai em busca de trabalho, sob os olhos atentos de todos, a filha busca mobilizar a comunidade, a esposa é impedida de ajudar, a sogra se recusa ao conformismo e o filho, autista, fica a resmungar e esperar pelo pão.





A fotografia é deslumbrante, em preto e branco, fria e calculada, revelando em pouca luz cada detalhe de um jantar raro, que alivia. Se o clima é sempre tenso, árido e de poucas palavras, é na dureza dos enquadramentos que somos levados à realidade de uma miserável família portuguesa da época.


Seara de Vento, nas palavras do diretor, é um western e um épico de abuso de poder, de pobreza e de revolta. “Foi um livro que as pessoas tinham por baixo do casaco na época da censura, e, quando a democracia foi retomada, o livro passou a ser muito retratado. Com o tempo, passou a ser pouco lido”. Seja mais ou menos conhecido, trata-se de um clássico, um livro de alcance universal e não difícil de ser enxergado nos dias atuais.


Sérgio tem longa carreira no documentário, e foi inclusive rodando um na região que despertou a ideia para produzir a ficção que estreia agora no Brasil. Em Raiva, ao fugir de uma estética novelesca, conseguiu, num filme de arte, contar uma boa história. Vale!


- Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018; estreia no circuito em 7 de março de 2019.

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