Temporada (2019)

Atualizado: 24 de Jan de 2019




Temporada, filme de André Novais Oliveira, de tão real, assusta. Juliana, a protagonista na interpretação impressionante de Grace Passô, poderia ser tema de letra dos Racionais: mulher, negra, desprezada pelo marido, sem atenção do pai, na estrada atrás de um emprego ao cruzar do interior à região metropolitana onde acaba convocada depois de passar num concurso que mal lembrava. Salário baixo, colchão no chão, descarga emperrada, dinheiro emprestado e, se até no lixão nasce flor, a beira do esgoto na mineira Contagem também vira paisagem para personagens brasileiríssimas.


Impossível não lembrar de Baronesa (2018), de Juliana Antunes, com Andreia e Leid em Belo Horizonte; de Arábia (2018), de Affonso Uchoa e João Dumans, onde Cristiano é um operário em Ouro Preto; ou de A Vizinhança do Tigre (2016), também de Uchoa, diante dos meninos da mesma Contagem. Um cinema mineiro de periferia, com suas gírias e seus tratos, não no sentido de rotular ou impor uma regionalidade restritiva, mas como registro pelo diálogo no olhar de alguns filmes contemporâneos que chamaram a atenção e que guardo em igual prateleira.


Mas aqui, em Temporada, duas coisas saltam rapidamente acima da média. Primeiro, a já citada atuação de Passô, subindo a régua da interpretação realista, sem fetiches nem senões encobertos, apenas ela, Juliana, as tantas Julianas trabalhadoras por aí, essa uma funcionária pública do combate a endemias, a dengue, por exemplo, revirando vasos e esvaziando pneus pelas garagens, fundos e lajes. Segundo, a sensível capacidade do diretor em não cair em maniqueísmos ou armadilhas de julgamento, porque aqui não há romantização da pobreza nem agonia pela condição social, não há sentimento de dó nem heroísmo, há a vida, e de tempo em tempo um sábado de festa para namorar e exagerar um pouco na cerveja.





Há também a boa construção das amizades de trabalho, tal qual em Corpo Elétrico (2017), de Marcelo Caetano, com boas cenas e diálogos do lanche no banquinho da calçada ou do latão de Brahma depois do trabalho, conversa fora, colegas da vida que não precisam ser terapeutas da experiência alheia: trocam o confortável, tocam o que lhes cabe, sem a fantasia de abraços intermináveis ou noites inesquecíveis e ela de novo, a vida, pura e simples.


Vale ainda destacar as presenças de Russão (Russo APR, ótimo), amigo e principal coadjuvante, parceiro para os dramas por quais passam todos, mas também sem exageros; e Dona Zezé (Maria José Novais, atriz e mãe do diretor), para quem o filme é dedicado e cuja personagem carrega toda a ternura de uma relação do tipo mãe e filha — a maternidade (e paternidade) é, aliás, tema recorrente —, também porque às vezes um café quente e um bolo de fubá são o suficiente para nos lembrar que, no fim das contas, a caminhada vale a pena.


Temporada, vencedor do Festival de Brasília de 2018 e que estreia neste 17 de janeiro de 2019, é também destaque da Mostra de Tiradentes deste mês, que inclusive homenageia Grace Passô, sendo descoberta aos poucos pelo público do cinema, mas já conhecida e premiada por outros trabalhos e intervenções no teatro. Mais uma mão que acerta no cinema brasileiro atual, para abrir janeiro encarando o que surgir à frente, acreditando na travessia e nas coisas que o próprio tempo dá conta de ajeitar.




Temporada - estreia em 17 de janeiro de 2019

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