Vermelha (2019)

Atualizado: 1 de Fev de 2019





Vermelha (2019) é um filme esquisito, e mais estranho ainda será se, ao chegar no circuito, locadoras online ou em mais festivais pelo Brasil, ninguém se incomodar com os primeiros minutos frente à tela. Faz parte quando se propõe o jogo do experimentalismo, da negação à narrativa tradicional, da decupagem anárquica, de um cinema menos pragmático, que rompe o arco e deixa o tempo quebradiço. Cabem risadas, mas não se trata de uma comédia; também não é um convencional drama familiar de periferias brasileiras, ainda mais com sua tensão dissolvida pelos momentos que flertam com o nonsense. Vermelha é meio torto, de sinopse difícil. Pessoalmente, entrei de cabeça, comprei a história obtusa, e ao que parece o juri da Mostra de Tiradentes também, oferecendo ao longa de Getúlio Ribeiro o principal prêmio do evento, o Troféu Barroco dedicado à Mostra Aurora.


Na trama, o protagonista Gaúcho, vivido pelo pai do diretor neste filme íntimo rodado na própria casa da família, está tocando a reforma de um telhado quando começa a ser cobrado por falta de pagamentos pelo responsável pelos materiais de construção. Nesse trabalho, ele interage principalmente com Beto, seu parceiro na missão, e enquanto isso dois outros homens buscam numa zona rural afastada uma raiz de uma árvore, sem muita explicação para tal. Aliás, o "enquanto isso" anterior foi pela construção do didatismo da frase, porque a ordem da montagem não tem rigidez para a história, e o filme, que parece adentrar numa ficção realista de rotinas comuns e conversas banais, se propõe também a criar fábula, costurar imaginações e criar desfechos aleatórios.


PODCAST: Ouça aqui o podcast Central Cine Brasil que debateu Vermelha (janeiro de 2019)

Conversei com Getúlio dias depois da Mostra, e ele pode explicar um pouco mais desse clima criado em Vermelha. O diretor conta que a ideia era erguer uma ficção que tivesse um apanhado temporal da memória daquela casa. "É uma ficção construída sobre um tempo muito fragmentado, não tem a linearidade do arco tradicional. Minha vontade era erguer a ficção a partir de todo um mosaico de relações que são de anos, e estabelecer essas relações e personagens de maneira não muito definitiva, mas numa ideia de comportamento de cena em que as coisas são fragmentadas naturalmente. E tem uma vontade também a partir dessa ficção que é erguida em experimentar como são esses rompimentos das relações afetivas, do próprio cinema, da própria memória e como organizar tudo isso numa ideia de presente, num filme que tem o fluxo ágil e constante em pegar todo esse tempo e dar uma compactada. São muitos anos comprimidos num cinema ágil", explicou ao Central Cine Brasil.


Naturalmente, há certa graça em não-atores conversando sobre a melhor lua para se cortar o cabelo ou as diferenças de tamanho nas medidas de um alqueire em Goiás para um no Sul do país. É espontâneo, e a fotografia documental passa essa sensação de cinema livre, sem pretensões enquadradas, criando a textura de uma produção pequena, entre pessoas próximas, de papo fácil e sem as padronizadas apresentações de personagem. No fim das contas, talvez daria para responder que Vermelha é sobre as formas que temos para contar nossa própria existência, às vezes cômica de tão aleatória, às vezes épica de tão banal.


E aí está a irremovível fresta que pode separar os dois olhares diante do longa: de um lado, reparar em cada detalhe da história, suas notícias de TV ao fundo e suas cenas que não temem se resolver com um absurdo herói de bastão na mão em meio à rua escura ou uma rasteira digna do recreio da quarta série; de outro, se cansar dessa interação um tanto travada, do conto que não engata, das curvas quebradas o tempo todo. Fico do lado da brisa do diretor, de um exercício de cinema que negue os filtros, montado na referência de um cinema brasileiro marginal e livre. E, como o próprio pergunta, por que não pegar a complexidade da nossa própria rua, da nossa própria casa, e poder pirar?


Vermelha - exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro de 2019





Mais momentos da entrevista com Getúlio Ribeiro:


- A Mostra de Tiradentes

Getúlio Ribeiro: Foi muito doido, porque o filme é sobre minha família e gravado dentro da minha casa, e foi uma viagem em família que há mais de dez anos não acontecia: então a gente saiu de carro de Goiânia até Tiradentes, umas 15 horas de viagem, e ali funcionava como uma extensão do filme, com meus pais e minha irmã. Foi muito forte nesse sentido de sentir uma continuidade, agora tendo uma volta ao espaço de exibição. Meus pais também se reconhecendo, se percebendo como artistas, atores do filme, e revendo essa casa que a gente morou boa parte da nossa vida. Muito louco como essa coisa do íntimo continuou prevalecendo lá, todo mundo assistindo ao filme. E foi uma repercussão positiva que a gente não esperava, foi uma correria grande para finalizar o filme e nem entramos na pilha da competição, do prêmio. Quando chegamos lá que foram surgindo as conversas, o pessoal gostando, a surpresa que aconteceu. Um olhar que gerou um certo estranhamento, e foi doido porque parece que foi um filme que o pessoal se sentiu instigado realmente.


- Definição do filme

Getúlio Ribeiro: A vontade inicial era de erguer uma ficção, mas a matéria dessa ficção era todo um apanhando temporal de memória daquela casa. Então é uma ficção construída sobre um tempo muito fragmentado, não tem a linearidade do arco tradicional da ficção. A ficção é erguida a partir de um tempo que é muito abstrato, um tempo que não é o tempo exatamente controlador e planejado no sentido de atender a um cronograma e ser fechado em si. Minha vontade era erguer a ficção a partir de todo um mosaico de relações que são de anos, e estabelecer essas relações e personagens de maneira não muito definitiva, mas numa ideia de comportamento de cena em que as coisas são fragmentadas naturalmente, não cai no óbvio. E tem uma vontade também a partir dessa ficção que é erguida em experimentar como são esses rompimentos das relações afetivas, do próprio cinema, da própria memória e como organizar tudo isso numa ideia de presente, num filme que tem o fluxo ágil e constante em pegar todo esse tempo e dar uma compactada. São muitos anos comprimidos num cinema ágil, em que busca sair da ficção numa complexidade maior de um cinemão também. A complexidade daquele espaço mesmo, que é minha rua, minha casa, e por que não poder pirar e fazer uma cena de briga, fabular outras coisas dentro desse ambiente que é muito íntimo.


- Referências do cinema brasileiro atual

Getúlio Ribeiro: Existem cineastas daqui de Goiás como o Rei Souza, que é um cara de Anápolis que eu gosto muito, e a nível de Brasil tem uns filmes como o Ela Volta na Quinta, do André Novais, que é de fato uma referência, um filme que abriu essa possibilidade de filmar a própria casa e afirmar esse território mais periférico. Mas acho que em geral ele herda muito uma coisa de um cinema marginal histórico do cinema brasileiro, lá de trás. Pela montagem, que tenta encontrar uma certa radicalidade e libertação, que vem muito desse cinema marginal de reconhecer o Brasil como esse território subdesenvolvido, essa estética, e através dessa libertação conseguia propor algo forte. Tem muito disso caminhando também com outra linha que eu tenho de um cinema clássico narrativo, os filmes policiais, ou de faroeste. É então reconhecer tudo isso não esquecendo o lugar que a gente está, e todo cinema que já passou por aqui.


E complementando: nessa lógica clássica do que influencia ou não, para mim, hoje ela é muito dispersa. E a gente encontra uma força cinematográfica de outros elementos que nem transpassa muito o próprio consumo do cinema, dos filmes, para ser a base da produção e daquilo que vai gerar filme. Mas é porque essas vias de referências são outras hoje. E boa parte da galera que eu gosto e consumo aqui como referência para esse trabalho - Rei, Pedro, Larry, Tothi, Luciano, Silvana e mais uma galera - é mais voltada para uma percepção de Goiânia, de estar resistindo aqui, atravessar aqui, consumir a música daqui, as conversas, as ideias, e o que forma uma força de influência que não é necessariamente nessa coisa sólida da influência do cinema, que é muito estética e muito pronta. Nasce com outro código para de fato virar um filme, códigos que não tem uma forma imagética muito bem resolvida. Então parte dessas influências, hoje, estão tanto nessas pessoas que eu convivo e como a gente percebe que é um período de codificação, de transformação de alguns códigos, para ele se tornar cinematográfico.


- Liberdade x cinema burocrático e pragmático

Eu acho que sempre vou evitar esse pragmatismo. A nossa produtora e a maneira com que a gente vem pensando nosso cinema são cada vez menos burocráticas, tentando desenrolar melhor as coisas. Filmar sendo uma parada com cada vez menos obstáculos e filtros. É uma parada que acho que sempre vou tentar buscar e querer que prevaleça.

83 visualizações

O Central Cine Brasil é, desde 2016, um podcast de cinema brasileiro. A partir de 2019, também uma página com artigos em texto e uma newsletter semanal com cobertura do audiovisual nacional.

centralcinebrasil@gmail.com

 

Galeria Ouro Fino

Rua Augusta - São Paulo-SP

  • Twitter ícone social
  • Spotify ícone social
  • Instagram ícone social
  • Facebook ícone social

Central Cine Brasil - 2016 - 2019